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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Economia: Crise e miséria no capitalismo norte-americano

Os Estados Unidos amargam os efeitos da mais longa recessão de sua história desde a Segunda Guerra, segundo o Departamento Nacional de Pesquisa Econômica (NBER, na sigla em inglês). Iniciada em dezembro de 2007 e oficialmente encerrada em junho de 2009, o declínio da economia durou 18 meses e deixa feridas profundas na terra do Tio Sam. A recuperação é frágil e incerta, o que renova os temores de um duplo mergulho na depressão.

Por Umberto Martins

É visível o acirramento das contradições sociais e da concentração da renda. Cresce a miséria no seio da classe trabalhadora. Estatísticas oficiais, divulgadas recentemente pelo governo, revelam que a quantidade de pobres na maior economia capitalista do mundo cresceu pelo terceiro ano seguido, passando de 39,8 milhões em 2008 para 43,6 milhões em 2009. O número é o maior em 51 anos e traduz uma taxa de pobreza de 14,3% no ano passado (ante 13,2% em 2008).

Quem paga o pato

Os indicadores mostram que os impactos sociais mais dramáticos da crise recaem sobre as famílias mais pobres, que pertencem à classe trabalhadora. A realidade social desta gente contrasta com a das camadas mais ricas da população, que continua enriquecendo apesar da recessão ou mesmo graças a ela.

Os salários nos Estados Unidos são mais altos que nos países latino-americanos. É isto que atrai a mão-de-obra imigrante proveniente do Brasil, México e outros países latino-americanos, iludidos com o American way of life (modo de vida americano).

Mas a renda do trabalho está estagnada nos Estados Unidos desde os anos 1970 e o emprego industrial, o que melhor remunera, percorre uma longa trajetória de declínio. Parece que os frutos da expansão capitalista verificada desde então foram apropriados exclusivamente pelos mais ricos, com destaque para a oligarquia financeira.

O excesso de consumo evidenciado na superprodução de imóveis, que acionou o gatilho da recessão, não decorreu do aumento da renda, mas da fartura de crédito fomentada pelos derivativos e pela ganância insaciável dos banqueiros. Com excesso de liquidez, emprestaram até para quem não tinha renda, patrimônio ou emprego.

Assim inflaram a bolha imobiliária. Quando chegou a hora da verdade, no curso de 2006, a bolha estourou, os preços dos imóveis despencaram, sobrevindo a inadimplência em massa, a recessão (no final de 2007) e os despejos, que vitimam milhões de trabalhadores e trabalhadoras.

Desemprego em massa

A situação da classe trabalhadora piorou (e muito) com a crise. Mais de 8 milhões foram afastados de seus postos de trabalho e passaram a engrossar o exército de desempregados, que segundo alguns economistas já conta com um efetivo superior a 30 milhões, incluindo os subempregados.
Observa-se também um aumento do grau de exploração dos que continuam empregados,
submetidos a um ritmo mais intenso de trabalho, maior flexibilização e precarização dos contratos. 

As empresas evitam contratar por tempo indeterminado e implementam planos de reestruturação poupadores de mão-de-obra.

Os governos Bush e Obama, em associação com o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), despejaram trilhões de dólares na economia a pretexto de conter a recessão e criar condições para a recuperação e o crescimento da economia.

Recuperação dos lucros

O governo e alguns analistas chegaram a alardear o fim da crise e início da recuperação diante da notícia de que, resgatados pelo dinheiro público, os bancos e muitas empresas saíram do vermelho e começaram a exibir gordos lucros, reanimando as bolsas de valores.

Mas a recuperação dos lucros não significou o fim da recessão para a grande maioria do povo, constituída de assalariados e desprovida de patrimônio. O desemprego continuou avançando, indiferente aos trilhões de dólares injetados pelo Estado no sistema financeiro e à retórica do governo Obama.

A verdade é que o Estado não agiu para proteger os trabalhadores. A forte intervenção do governo na economia, que alguns analistas interpretaram precipitadamente como um adeus ao neoliberalismo, serviu a outro interesse: salvar os banqueiros, responsáveis pela crise, e grandes empresas como a GM e a Ford.

Ganhando para demitir


Provisoriamente estatizada, a montadora GM recebeu bilhões de dólares para levar à frente um projeto de reestruturação que prevê a demissão de dezenas de milhares de operários nos Estados Unidos.

Outra “grande de Detroit” (outrora), depois de amargar anos de prejuízos a Ford espera anunciar um lucro de 5 bilhões de dólares neste ano depois de reduzir sua força de trabalho em quase 50% na América do Norte ao longo dos últimos cinco anos.

São fartos os exemplos de grandes empresas que estão ampliando os lucros com as demissões, intensificando a exploração da força de trabalho e forçando o aumento da produtividade do trabalho, conforme relata Fred Gosdstein num esclarecedor artigo sobre o tema.

As empresas também lucram com a chamada deslocalização, fechando fábricas no país e transferindo a produção para outros países onde a mão-de-obra é mais barata. O resultado disto é mais desemprego e desindustrialização, que no caso dos EUA não reflete apenas uma tendência objetiva do desenvolvimento da economia. É antes um sinal do parasitismo.

Vê-se, assim, que o desemprego é um flagelo para as famílias da classe trabalhadora, mas é também, ao mesmo tempo, uma fonte de lucros para os grandes grupos capitalistas, cujos interesses são escandalosamente dominantes no seio do Estado burguês. Não é de estranhar que o empenho para solucionar o problema deixe a desejar.

O emprego e a recuperação

Embora não impeça que alguns velhacos continuem lucrando e até ampliando seus rendimentos líquidos na crise, o desemprego é um péssimo negócio para a economia como um todo. A renda do trabalho é o principal fundamento do consumo em escala social.

Quando o trabalhador perde o emprego, e a renda decorrente, é constrangido a reduzir drasticamente ou mesmo interromper o consumir e também o pagamento de dívidas. Esta circunstância acirra a contradição entre produção e consumo que caracteriza o capitalismo, onde, ao contrário do que imagina o senso comum, o objetivo da produção não é o consumo, mas o lucro, sendo esta a razão última das crises de superprodução.

A queda do consumo induz os capitalistas a reduzir o volume de produção para adequá-lo à demanda deprimida, o que constitui um óbvio óbice à recuperação e ao crescimento da economia. Em virtude do parasitismo econômico, a poupança responde por 70% do PIB dos EUA.
Ao reduzir o consumo, o desemprego deixa de ser efeito para se transformar em causa da crise. Não é sem razão que muitos economistas apontem a escassez de emprego como o grande obstáculo à recuperação.

Distribuição da renda

A concentração da riqueza agrava o problema. Em contrapartida à estagnação da renda do trabalho, no topo da pirâmide social a faixa de 1% mais rico da população, que possuía 9% da renda nacional nos anos 1970, passou a se apropriar de 23,5% da renda total em 2007, ou seja, triplicou sua participação. A distribuição da renda nos EUA retrocedeu ao perfil verificado no início da Grande Depressão, em 1929.

Os super ricos têm muito dinheiro, mas uma capacidade de consumo limitada. Gastam um percentual menor de sua renda em comparação ao que consome o cidadão normal. Ou seja, os 23,5% da renda nacional apropriados por 1% de ricaços não são totalmente carreados para o consumo. Isto certamente contribuiu para a dramática queda do consumo nos EUA, que ultimamente vinha sendo sustentado pelo crescente endividamento.

O baixo consumo é a principal restrição à plena recuperação da economia. Isto transparece nos dados do mercado imobiliário, que registrou uma queda de 27,2% na venda de imóveis em julho deste ano, o que reflete a inadimplência dos desempregados. Os bancos que financiaram os trabalhadores na compra das casas reagem desencadeando um processo de despejo em massa. A construção civil responde por 15% do PIB americano.

A aparente contradição entre o recuo do consumo e o avanço dos lucros “é uma das razões por que em Wall Street há muito mais alegria que nas casas dos trabalhadores, onde o pessimismo é profundo e o desemprego dá poucos sinais de que vai diminuir”, comenta o jornal Times.

Sintomas do fascismo

Imigrantes e negros são os segmentos da classe trabalhadora mais afetados pela crise. O desemprego entre os negros chegou a 15,5% em maio, contra taxas nacionais de 9,7%. A situação já é quase tão desesperada quanto no ponto mais baixo da Grande Depressão dos anos 1930: mais de um, de cada seis negros, está desocupado; entre adolescentes negros, a maioria dos quais está fora da escola e busca emprego de tempo integral, a taxa de desemprego alcança 38%.

O Censo dos EUA revela que a proporção de brancos que viviam na pobreza era de 8,6% em 2008, mas a taxa quase triplica entre os cidadãos afro-americanos e latinos, com 24,7 e 23,2%, respectivamente. Em 2008, 30,7% dos latinos, 19,1% dos afro-americanos e 14,5% dos brancos careciam de qualquer seguro médico.

A exemplo do que ocorre na Europa, a extrema-direita norte-americana, que avança no seio do Partido Republicano, procura transformar os imigrantes em bodes expiatórios da crise. A recessão exacerba o cinismo da oligarquia financeira e estimula a intolerância e o racismo, criando um caldo de cultura próprio do fascismo.

Fragmentar a classe trabalhadora com a clivagem entre imigrantes, negros e brancos “nativos” e impedir o desenvolvimento de uma consciência e uma identidade de classe entre as diferentes categorias e segmentos é uma operação elementar do grande capital para manter o domínio e o modelo econômico predatório e reacionário.

Frustração


A recessão teve um papel decisivo na eleição de Obama. Os trabalhadores enxergaram no líder negro a esperança de medidas concretas e eficazes contra o desemprego e o retrocesso social. Votaram em massa no candidato democrata. Mas o atual presidente, que não poupou recursos para salvar os banqueiros, frustrou as expectativas do povo, está com a popularidade em baixa e tende a colher um resultado melancólico nas eleições parlamentares de novembro.

O que ainda está em curso nos Estados Unidos é uma crise típica do capitalismo, que ocorre nos marcos do desenvolvimento desigual das nações reforçando o declínio histórico da hegemonia americana e os desequilíbrios insustentáveis da ordem imperialista.

Infelizmente, não há sinais de solução à vista. Sufocada por um sindicalismo corrompido e a divisão racial e étnica em seu próprio meio (entre negros, brancos e imigrantes), a classe trabalhadora não está em condições de apresentar uma alternativa progressista ao capitalismo neoliberal dos EUA. O processo eleitoral é monopolizado por dois partidos que têm o rabo preso com as classes dominantes e parece infenso a mudanças. O pleito de novembro não vai alterar esta realidade, a menos que seja para pior. 



FONTE: Portal Vermelho

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A dívida dos Estados Unidos

Déficits podem alterar a política e o poder global dos Estados Unidos

por DAVID E. SANGER, no New York Times
Published: February 1, 2010


WASHINGTON — Em um orçamento federal repleto de estatísticas espantosas, dois números se destacam de forma particularmente chocante, por representarem possível mudança na política e no poder americanos.
O primeiro é o déficit projetado para os próximos anos, cerca de 11% de toda a produção econômica do país. Isso tem precedente: durante a guerra civil e as guerras mundiais os Estados Unidos tiveram déficits crescentes, mas em geral com a expectativa de que seriam derrubados uma vez a paz fosse restaurada e os gastos militares reduzidos.

Mas o segundo número, enterrado nas projeções do orçamento, é o que realmente chama a atenção: pelos cálculos otimistas do próprio presidente Obama, os déficits americanos não vão retornar ao que se considera níveis sustentáveis pelos próximos dez anos. Na verdade, em 2019 e 2020 -- anos nos quais o sr. Obama terá deixado a cena, mesmo que cumprir dois mandatos -- os orçamentos começarão a crescer de novo, para mais de 5% do PIB. O orçamento de Obama traça o retrato de uma nação que, como muitos donos de imóveis dos Estados Unidos, simplesmente não consegue manter o nariz acima da linha d'água.

Para o sr. Obama e seus sucessores, o efeito dessas projeções é claro. A não ser que crescimento miraculoso aconteça, ou que acordos políticos miraculosos criem mudanças inesperadas na próxima década, não há espaço para novas iniciativas domésticas do sr. Obama e de seus sucessores. Além disso fica a possibilidade de que os Estados Unidos poderiam começar a sofrer da mesma doença que afetou o Japão na última década. Com o crescimento da dívida maior que o da renda, a influência do país no mundo pode sofrer uma erosão.

E, como o assessor-chefe do sr. Obama, Lawrence H. Summers, costumava perguntar antes de entrar no governo um ano atrás, "como pode o maior devedor do mundo permanecer o maior poder do mundo?".
A liderança chinesa, que empresta muito do dinheiro que financia os gastos do governo americano, e que fez perguntas duras sobre o orçamento do sr. Obama quando alguns membros dela visitaram Washington no verão passado, diz que pensa que a resposta para a pergunta do sr. Summers é auto-evidente. Os europeus também dizem que essa é a grande preocupação da próxima década.
O sr. Obama em pessoa deu sinais de preocupação quando anunciou no início de dezembro que planejava mandar 30 mil soldados americanos para o Afeganistão, mas insistiu que os Estados Unidos não poderiam ficar por muito tempo lá.

"Nossa prosperidade cria a fundação para nosso poder", ele disse a cadetes da academia de West Point. "Paga nossos militares. Banca nossa diplomacia. Tira proveito do potencial de nosso povo e permite investimento em novas indústrias".
E então ele explicou que mesmo uma "guerra necessária", como chamou a do Afeganistão no verão passado, poderia durar muito.

"É por isso que nosso compromisso com o Afreganistão não pode indefinido", ele disse então, "porque a nação que mais me interessa construir é a nossa própria nação".
O orçamento do sr. Obama merece crédito por sua franqueza. Não tenta disfarçar com açúcar, pelo menos excessivamente, a magnitude potencial do problema. O presidente George W. Bush costumava repetir, até o fim de seu mandato, que deixaria o governo com um orçamento equilibrado. Nem chegou perto; na verdade, o deficit disparou em seus últimos anos de governo.

O sr. Obama publicou as previsões para os próximos dez anos, em parte, para argumentar que a paralisação política dos últimos anos, na qual a maioria dos republicanos não quer falar de aumento de impostos, enquanto os democratas não discutem o corte de programas sociais, é insustentável. A receita do sr. Obama é de primeiro piorar o problema, fazendo gastos para combater a taxa de desemprego, antes de agir para que o deficit seja derrubado.

O sr. Summers, em uma entrevista na tarde de segunda-feira, disse que "o orçamento reconhece os imperativos de criar empregos e incentivar o crescimento no curto prazo e toma medidas significativas para aumentar a confiança no médio prazo".
Ela estava se referindo ao congelamento de gastos domésticos não relacionados à segurança nacional, à tentativa de cortar custos de saúde e à decisão de deixar expirar os cortes de impostos do governo Bush para as corporações e as famílias que ganham mais de 250 mil dólares anuais.

Mas o sr. Summers disse que "através das comissões fiscal e de orçamento, o presidente deu espaço para que se faça novos ajustes, se necessários para evitar algum tipo de crise".

Transformar isso em ação política, no entanto, tem se mostrado cada vez mais difícil para Washington. Os republicanos ficaram calados durante os anos de dívida de Bush. Os democratas descreveram o déficit como mal necessário durante a crise econômica que definiu o primeiro ano de governo do sr. Obama. O interesse em uma solução de longo prazo é limitada. Ou, como disse Isabel V. Sawhill, da Brookings Institution, na MSNBC, "o problema aqui não é honestidade, mas vontade política".

Uma fonte dessa falta de vontade é que os alertas políticos são contrários aos sinais emitidos pelo mercado. O Tesouro tem emprestado dinheiro para financiar os déficits do governo a taxas surpreendentemente baixas, um indicador forte de que os mercados acreditam que serão pagos em dia e sem desconto.
A falta de vontade política também é facilitada pelo fato de que, como o professor James K. Galbraith, da Universidade do Texas, colocou, "previsões para 10 anos não tem credibilidade".

Ele está certo. No início do governo Clinton, as projeções do governo indicavam grandes deficits -- acima do nível "sustentável" de 3% do PIB -- até 2000. Mas quando chegou essa data, Clinton tinha um superavit modesto de cerca de 200 bilhões de dólares, um ponto lembrado pelo sr. Obama na segunda-feira quando ele disse ao país que aquele momento foi desperdiçado quando "o governo e o Congresso passados criaram um programa de drogas caro, aprovaram cortes de impostos maciços para os ricos e financiaram duas guerras sem pagar por elas".
Mas com este orçamento o sr. Obama agora é dono do deficit. Como o sr. Galbraith notou, é possível que as previsões sombrias para 2020 se provem igualmente falsas.

Simplesmente projetar que os custos de saúde vão aumentar sem teto é um exercício perigoso.
"Muito vai depender da gente promover reformas que reconstruam um sistema financeiro que funcione", o sr. Galbraith disse, para com isso promover o crescimento no setor privado -- o tipo de crescimento que salvou o sr. Clinton de suas próprias projeções.

Sua maior esperança, disse o sr. Galbraith, é a lei de Stein, nomeada em homenagem a Herbert Stein, presidente do Conselho de Assessores Econômicos dos governos Richard M. Nixon e Gerald R. Ford.

A lei de Stein tem várias versões diferentes. Mas todas em torno de um ponto em comum: se uma tendência não pode continuar, ela é interrompida.

Fonte: Viomundo

segunda-feira, 16 de março de 2009

Mídia Terrorista Brasileira ou Os Filhos da Pura

Quando pego o telefone para falar com meu cliente e escuto em tom negativo que os negócios estão parados, que por isso ele não irá comprar meu produto, imediatamente lhe pergunto:
-- Você é assinante da Revista Veja, Folha de São Paulo ou Estadão? Você ouve as rádios CBN ou Bandnews? Você assiste os noticiários da Rede Globo, principalmente o Jornal Nacional?
Bingo! Então o cliente me pergunta como é que eu advinhei, como se eu precisasse de bola de cristal.
Esses terroristas tem influenciado negativamente a cabeça do meu cliente que por consequência acredita no fim do mundo ainda em 2009. Ele está paralisado.
Resultado: Estes filhos de uma "pura" estão fazendo muito mal aos meus negócios e a minha vida!

Ombudsman do Jornal Folha de São Paulo:

"O MEU PIB CAIU MAIS DO QUE O SEU"

A principal notícia da semana foi a queda do PIB brasileiro no quarto trimestre de 2008, que colocou de vez o país entre as vítimas da crise econômica global.

Na quarta, a Folha tratou dela com prioridade em dois aspectos: comparação do resultado do desempenho da economia brasileira no último trimestre do ano passado com o de outros 36 países e ênfase no fato de o governo federal vir declarando que a crise teria efeitos menores aqui.

Foi um erro. A comparação com outros países pode ser importante para analistas e estudiosos, mas não é fundamental para o leitor.

Para o cidadão comum, não interessa muito se a crise aqui é maior ou menor do que na Cochinchina. O que mais lhe importa é saber se ele vai manter o emprego e a renda, se o ambiente econômico do setor em que trabalha está saudável ou não, quais são as perspectivas para o futuro.

Mesmo se fizesse sentido priorizar a questão sobre onde o PIB caiu mais ou menos, a Folha errou, como o próprio texto principal do caderno Dinheiro deixa claro.

Na capa do jornal e nos locais de destaque, insistiu-se na tese de que, por seu PIB ter tomado um dos maiores tombos entre as 37 nações listadas, o Brasil está entre os principais atingidos pela crise.

Não é bem assim. Foi porque o país cresceu mais que os outros no ano inteiro que o contraste entre o quarto e o terceiro trimestres de 2008 foi tão intenso.
Como diz o quinto parágrafo do texto da página B1: "E o fato de o Brasil ter sofrido uma retração maior do que nos outros países no último trimestre do ano não significa que a crise aqui seja maior".

Além disso, chamada de primeira página e linha fina da manchete interna dão ao noticiário, que tem obrigação de ser isento, tom injustificável de editorial, com afirmações como "o país está entre os mais atingidos (...) ao contrário do que o governo vinha dizendo" ou o desempenho do PIB "fez ruir o discurso oficial de que país seria pouco afetado".

Se o jornal quer destacar que o governo errou em suas análises, publique objetivamente declarações antigas dos governantes e dados atuais.

E deixe o leitor decidir se eles fazem ruir o discurso, se o discurso era um castelo de areia, se foi a conjuntura que mudou ou se é obrigação de todo dirigente infundir otimismo na sociedade. Ou qualquer outra coisa que queira concluir. O leitor é inteligente. Não precisa dessas "mãozinhas" retóricas.

A coisa vinha mal desde sábado, quando a manchete do caderno cometeu, no meu entender e de economistas consultados, erro factual ao afirmar: "Indústria tem pior resultado desde Collor".

O que houve foi a variação anual mais negativa da atividade industrial em 19 anos, não o pior "resultado", que significa o quanto foi produzido ou vendido, que evidentemente foi muito maior em 2008 do que em 1989.

O leitor não quer saber dessas picuinhas e suas implicações políticas. Quer é saber o que pode acontecer com a sua vida material. É nisso que o noticiário econômico deve se concentrar.”

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Produção Industrial Registra Maior Queda da História

Que susto!

Um leitor desavisado, daqueles que dá uma olhadinha rápida nas manchetes, deve ter levado um grande susto com essa notícia divulgada no caderno de economia do Jornal do Brasil Online.

Mas quando clicamos no link da matéria deparamos com a realidade do artigo:
SÃO PAULO, 26 de dezembro de 2008 - A produção industrial no Japão caiu 8,1% em novembro deste ano, em comparação ao mês anterior, registrando o maior recuo de sua história, segundo informou hoje o Ministério da Economia do Japão.

Tudo bem que as manchetes são criadas para chamar atenção, mas tornou-se uma febre essa atitude de usar notícias dos efeitos da crise internacional com a finalidade de induzir o leitor a pensar que trata-se de uma ocorrência no Brasil.

O que estaria por trás de uma atitude dessas?
Creio que há uma nítida vontade de confundir e colocar medo nas pessoas para que sintam-se inseguras quanto ao seu futuro. Desta maneira a intenção é plantar no psicológico das pessoas uma idéia de que, se lá fora no primeiro mundo as coisas estão dessa maneira, imagina o que irá acontecer com nosso país?

É óbvio que muita gente está torcendo para essa crise atingir em cheio o Brasil. Essa é a única maneira no curto prazo para desestabilizar a popularidade recorde do atual governo. Sendo assim, os mais de 70% da população que aprovam a gestão do atual mandatário da república, poderão olhar com outros olhos para a oposição e pensar em colocar no planalto central algum mágico de plantão em 2010.

Por incrível que possa parecer, existem aqueles que desejam ver a vida de milhões de pessoas piorar simplesmente para beneficiarem-se da desgraça alheia.

Essa é a realidade que podemos comprovar nas manchetes terroristas que vivem plantando uma crise no psicológico das pessoas.

Em uma palavra: egoísmo!