Rev. Sandro Amadeu Cerveira
do site da Segunda Igreja
Talvez eu tenha falhado como pastor nestas eleições. Digo isso porque estou com a impressão de ter feito pouco para desconstruir ou no pelo menos problematizar a onda de boataria e os posicionamentos “ungidos” de alguns caciques evangélicos. [1]
Talvez o mais grotesco tenham sido os emails e “vídeos” afirmando que votar em Dilma e no PT seria o mesmo que apoiar uma conspiração que mataria Dilma (por meios sobrenaturais) assim que fosse eleita e logo a seguir implantaria no Brasil uma ditadura comunista-luciferiana pelas mãos do filho de Michel Temer. Em outras o próprio Temer seria o satanista mor. Confesso que não respondi publicamente esse tipo de mensagem por acreditar que tamanha absurdo seria rejeitada pelo bom senso de meus irmãos evangélicos. Para além da “viagem” do conteúdo a absoluta falta de fontes e provas para estas “notícias” deveria ter levado (acreditei) as pessoas de boa fé a pelo menos desconfiar destas graves acusações infundadas. [2]
A candidata Marina Silva, uma evangélica da Assembléia de Deus, até onde se sabe sem qualquer mancha em sua biografia, também não saiu ilesa. Várias denominações evangélicas antes fervorosas defensoras de um “candidato evangélico” a presidência da república simplesmente ignoraram esta assembleiana de longa data.
Como se não bastasse, Marina foi também acusada pelo pastor Silas Malafaia de ser “dissimulada”, “pior do que o ímpio” e defender, (segundo ele), um plebiscito sobre o aborto. Surpreende como um líder da inteligência de Malafaia declare seu apoio a Marina em um dia, mude de voto três dias depois e à apenas 6 dias das eleições desconheça as proposições de sua irmã na fé.
De fato Marina Silva afirmou (desde cedo na campanha, diga-se de passagem) que “casos de alta complexidade cultural, moral, social e espiritual como esses, (aborto e maconha) deveriam ser debatidos pela sociedade na forma de plebiscito” [3], mas de fato não disse que uma vez eleita ela convocaria esse plebiscito.
O mais surpreendentemente, porém foi o absoluto silêncio quanto ao candidato José Serra. O candidato tucano foi curiosamente poupado. Somente a campanha adversária lembrou que foi ele, Serra a trazer o aborto para dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) [4]. Enquanto ministro da saúde o candidato do PSDB assinou em 1998 a norma técnica do SUS ordenando regras para fazer abortos previstos em lei, até o 5º mês de gravidez [5]. Fiquei intrigado que nenhum colega pastor absolutamente contra o aborto tenha se dignado a me avisar desta “barbaridade”.
Também foi de estranhar que nenhum pastor preocupado com a legalização das drogas tenha disparado uma enxurrada de-mails alertando os evangélicos de que o presidente de honra do PSDB, e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso defenda a descriminalização da posse de maconha para o consumo pessoal [6].
Por fim nem Malafaia, nem os boateiros de plantão tiveram interesse em dar visibilidade a noticia veiculada pelo jornal a Folha de São Paulo (Edição eletrônica de 21/06/10) nos alertando para o fato de que “O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou nesta segunda-feira ser a favor da união civil e da adoção de crianças por casais homossexuais.” [7]
Depois de tudo isso é razoável desconfiar que o problema não esteja realmente na posição que os candidatos tenham sobre o aborto, união civil e adoção de crianças por homossexuais ou ainda a descriminalização da maconha. Se o problema fosse realmente o comprometimento dos candidatos e seus partidos com as questões acima os líderes evangélicos que abominam estas propostas não teriam alternativa.
A única postura coerente seria então pregar o voto nulo, branco ou ainda a ausência justificada. Se tivessem realmente a coragem que aparentam em suas bravatas televisivas deveriam convocar um boicote às eleições. Um gigantesco protesto a-partidário denunciando o fato de que nenhum dos candidatos com chances de ser eleitos tenha realmente se comprometido de forma clara e inequívoca com os valores evangélicos. Fazer uma denuncia seletiva de quem esta comprometido com a “iniqüidade” é, no mínimo, desonesto.
Falar mal de candidato A e beneficiar B por tabela (sendo que B está igualmente comprometido com os mesmo “problemas”) é muito fácil. Difícil é se arriscar num ato conseqüente de desobediência civil como fez Luther King quando entendeu que as leis de seu país eram iníquas.
Termino dizendo que não deixarei de votar nestas eleições.
Não o farei por ter alguma esperança de que o Estado brasileiro transforme nossos costumes e percepções morais em lei criminalizando o que consideramos pecado. Aliás tenho verdadeiro pavor de abrir esse precedente.
Não o farei porque acredite que a pessoa em quem votarei seja católica, cristã ou evangélica e isso vá “abençoar” o Brasil. Sei, como lembrou o apóstolo Paulo, que se agisse assim teria de sair do mundo.
Votarei consciente de que os temas aqui mencionados (união civil de pessoas do mesmo sexo, descriminalização do aborto, descriminalização de algumas drogas entre outras polêmicas) não serão resolvidos pelo presidente ou presidenta da república. Como qualquer pessoa informada sobre o tema, sei que assuntos assim devem ser discutidos pela sociedade civil, pelo legislativo e eventualmente pelo judiciário (como foi o caso da lei de biossegurança) [8] com serenidade e racionalidade.
Votarei na pessoa que acredito representa o melhor projeto político para o Brasil levando em conta outras questões (aparentemente esquecidas pelos lideres evangélicos presentes na mídia) tais como distribuição de renda, justiça social, direitos humanos, tratamento digno para os profissionais da educação, entre outros temas. (Ver Mateus 25: 31-46) Estas questões até podem não interessar aos líderes evangélicos e cristãos em geral que já ascenderam à classe média alta, mas certamente tem toda a relevância para nossos irmãos mais pobres.
NOTAS
[1] As afirmações que faço ao longo deste texto estão baseadas em informações públicas e amplamente divulgadas pelos meios de comunicação. Apresento os links dos jornais e documentos utilizados para verificação.
[2] http://www.hospitaldalma.com/2010/07/o-cristao-verdadeiro-nao-deve-votar-na.html
[3] http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/marina+rebate+declaracoes+de+pastor+evangelico+silas+malafaia/n1237789584105.html. Ver também http://www1.folha.uol.com.br/poder/805644-lider-evangelico-ataca-marina-e-anuncia-apoio-a-serra.shtml
[4] http://blogdadilma.blog.br/2010/09/serra-e-o-unico-candidato-que-ja-assinou-ordens-para-fazer-abortos-quando-ministro-da-saude-2.html
[5] http://www.cfemea.org.br/pdf/normatecnicams.pdf
[6] http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=856843&tit=FHC-e-intelectuais-pedem-legalizacao-da-maconha
[7] http://www1.folha.uol.com.br/poder/754484-serra-se-diz-a-favor-da-uniao-civil-e-da-adocao-de-criancas-por-gays.shtml
[8] http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=206
Como nossa página não oferece o recurso de postar comentário diretamente nesta parte convido aos que desejarem faze-lo a enviar um email para segundaigreja@segundaigreja.org.br em nome do Rev. Sandro que publicaremos com prazer.
Fonte: Segunda Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte
Lido no Viomundo
Penso, logo existo! Esse é meu espaço para opinar sobre assuntos e temas variados. Não me deixo levar por idéias contrárias que não tenham base de sustentação. As aparências e algumas "informações" enganam. Não pertenço a pequenos grupos, mas a uma "Grande Nação" e isso é maior que tudo. "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma" - Joseph Pulitzer
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terça-feira, 19 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
ELEIÇÕES - Voto dos ateus, recorde de Lula e a nova bala de prata.
O novo Datafolha publicado pelo jornal neste sábado mostra estabilidade na disputa presidencial _ Dilma continua com 54% dos votos válidos e Serra com 46% _ mas foram dois outros números me chamaram a atenção, embora tenham merecido pouco destaque na edição: o novo recorde de aprovação do presidente Lula, que bateu nos 81%, e a movimentação registrada nas preferências dos eleitores das diferentes igrejas e entre os ateus.
Numa semana em que a guerra santa chegou ao auge na campanha eleitoral, com Serra distribuindo santinhos em nome de Jesus e Dilma assinando uma carta de compromisso para atender aos evangélicos, a maior oscilação ocorreu justamente entre os que declaram não ter religião nenhuma _ e no caminho inverso do que todos imaginavam.
Desde que o tucano largou o papel de médico e assumiu o de beato no segundo turno, e a candidata petista, acusada pelos adversários de ser uma atéia malvada, começou a se mostrar uma irmã pia, parece que deu a louca na guerra santa em que se transformou esta campanha.
Sim, por incrível que pareça, foi José Serra quem cresceu no eleitorado ateu: passou de 35% para 40% entre os que não têm religião. Dilma fez o caminho inverso: perdeu seis pontos entre os ateus, caindo de 51% para 46% nesta parcela do eleitorado.
Que se passa na cabeça dos brasileiros? Já é uma maluquice uma pesquisa indagar aos entrevistados qual a sua religião antes de perguntar em quem vai votar, como se se uma coisa estivesse diretamente ligada a outra e o Brasil se debatesse numa disputa entre as igrejas e seus fiéis e não entre partidos políticos e seus eleitores. Por que não perguntam também para quais times os eleitores torcem?
Com o eleitorado católico e o dos evangélicos pentecostais se mantendo estável nesta pesquisa, a vantagem de Serra se deu entre os evangélicos não pentecostais, em que ele passou de 48% para 50%, enquanto Dilma caiu quatro pontos, de 40% para 36%. Pelo jeito, as missas e os cultos deste final de semana podem ser decisivos para a escolha do futuro presidente da República.
No canto esquerdo do pé da página A6 da Folha, procurando bem, ficamos sabendo que “Após três meses, aprovação de Lula volta a subir e bate recorde”, chegando a 81% ( na semana passada tinha 78%) os que consideram seu governo ótimo ou bom. Os mesmos 4% de sempre o consideram ruim/péssimo.
Não, ao contrário do que o jornal dá a entender, não se trata de um fato muito corriqueiro, banal, previsível nas pesquisas sobre a avaliação de presidentes e seus governos, principalmente quando estão, como Lula, a apenas três meses do final do segundo mandato. Como lembra o colunista Fernando Rodrigues no mesmo jornal, o recorde de Fernando Henrique Cardoso foi de 47%, em dezembro de 1996, na metade do primeiro mandato.
O problema, para Dilma, é que apenas metade dos que aprovam o governo declaram que o apoio de Lula pode levá-los a votar em um candidato, enquanto para os outros 40% esta preferência é indiferente. Entre os que avaliam o governo Lula como ótimo ou bom, 33% declararam votar em José Serra.
Números para cá e para lá, a duas semanas das eleições o quadro se apresenta indefinido, como já escrevi no post anterior. Serra largou melhor no segundo turno, criou uma onda favorável, mas chega ao segundo debate, marcado para este domingo na Rede TV, com uma bala de prata vindo em sua direção, que pode desmontar toda a estratégia baseada na questão religiosa.
Sob o título “Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna”, a repórter Mônica Bergamo rompe o silêncio da grande imprensa ( a notícia saiu primeiro no site do jornal Correio do Brasil) sobre este delicado assunto que inundou a internet nos últimos dias. “Segundo relato feito à Folha por ex-alunas de Monica no curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a então professora lhes contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido”.
Quem primeiro revelou o caso em seu Facebook foi a bailarina Sheila Canevacci Ribeiro, para “deixar minha indignação pelo posicionamento escorregadio de José Serra” em relação ao tema do aborto. “Com todo respeito que devo a esta minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o seu aborto traumático”.
Mesmo que Dilma Rousseff não queira tocar no assunto, é pouco provável que as duas jornalistas, da Rede TV e da Folha, escaladas para fazer perguntas aos candidatos durante o dabate, não toquem neste assunto. Para quem fez da defesa dos ”valores cristãos” e dos ataques aos que defendem a descriminização do aborto seu carro-chefe de campanha nesta reta final, a revelação da ex-aluna da mulher do candidato não poderia vir em pior hora.
FONTE: Lido no Blog de Um Sem Mídia
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Pressão de evangélicos não é por fé, mas por poder
Roberto Stuckert Filho/Divulgação Durante encontro com líderes religiosos em setembro, Dilma declarou ser contra o aborto |
Dayanne Sousa
A pressão de setores religiosos - principalmente evangélicos - sobre uma definição contra o aborto da campanha da presidenciável Dilma Rousseff (PT) não tem motivação religiosa, mas é uma forma de barganhar por poder, avalia a cientista Maria das Dores Campos Machado. Ela destaca que, neste segundo turno presidencial - nem Dilma, nem José Serra (PSDB) têm perfil religioso. Para ela, qualquer um dos dois tem chances de ganhar o apoio desses grupos por negociação.- Eu percebo que existe um pragmatismo muito grande nos grupos religiosos. Eles sabem que estão lidando com dois candidatos que não são religiosos.
Para a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os pastores viram na polêmica uma chance de se estabelecerem na política.
- É um jogo e o que estas lideranças querem mostrar é que estão sendo reconhecidas.
Autora dos livros "Os Votos de Deus" e "Política e Religião", Maria das Dores é diretora de um núcleo de estudos sobre religião e política. Em entrevista a Terra Magazine, ela critica o uso da discussão em torno da descriminalização do aborto nas eleições. "O fato de isso aparecer na eleição, mostra como o debate na sociedade é incipiente". "Esse tema está sendo usado na eleição porque a sociedade não tem uma posição clara".
Leia a entrevista na íntegra.
Terra Magazine - O que a senhora está achando do fato de os votos dos religiosos entrarem no centro dessa disputa pelo segundo turno? A questão do aborto, principalmente, está se tornando crucial para os presidenciáveis.
Maria das Dores Campos Machado - A religião sempre teve uma dimensão muito importante na cultura brasileira e aparece sempre em momentos importantes das eleições. Nos últimos anos, o movimento feminista conquistou alguns avanços junto ao Poder Executivo, há a questão do Plano Nacional de Direitos Humanos. Isso expressava um certo avanço dos setores mais progressistas do governo. O que há é uma reação dos grupos conservadores. Você não tem nenhum grupo religioso com uma única posição com relação às candidaturas que estão representadas agora. Tanto os evangélicos como os católicos estão divididos. Eles também percebem que a própria candidatura de José Serra também tem mais afinidade com posturas mais liberais. Ele já foi ministro da Saúde, tem medidas que facilitaram a contracepção de emergência.
Como é essa divisão?
No caso de Serra, os contatos que ele mantém são muito mais graças ao Geraldo Alckmin, que é um católico mais conservador, e alguns movimentos de renovação carismática muito ligados ao Geraldo Alckmin no interior de São Paulo. No caso de Dilma, a candidatura dela tem o apoio tanto do bispo Edir Macedo (líder da Igreja Universal) como do bispo Manoel Ferreira, que é uma grande liderança da Assembleia de Deus. Mas há uma grande resistência de grupos mais conservadores e grupos que não conseguem estabelecer um canal direto com as grandes candidaturas. Não se pode esquecer que os evangélicos têm um caráter muito pragmático. Eles sabem estabelecer uma separação entre o que é do mundo legislativo e o que é essa doutrina religiosa. Nesse sentido, eu acho que existe possibilidade de os dois candidatos conquistarem apoio desses grupos para além da visão ideológica ou da visão mais doutrinária de ser contra ou a favor do aborto. Eles sabem muito bem que eles estão lidando com dois atores políticos que não são religiosos, mas que podem dialogar com suas lideranças e podem dar um tratamento de ouvir mais essas lideranças na maneira de encaminhar o debate do aborto.
Mas essa possibilidade de negociar com os dois lados independe, então, da questão religiosa em si?
Eu percebo que existe um pragmatismo muito grande nos grupos religiosos. Até o final dos anos 90, o Lula era visto como um representante do "demônio" por vários pastores. Os pastores diziam que o Lula era endemoniado. Eu lembro que, na campanha em que o Lula foi vitorioso, o bispo Carlos Rodrigues disse: Nós criamos o veneno - que era considerar o Lula um demônio - nós vamos criar o antídoto. Existe por parte das lideranças certo pragmatismo. Uma vez convencidos de que as alianças políticas podem ser proveitosas para os seus grupos, eles podem rever toda a posição.
Mas esse apoio não iria, neste caso, ao candidato que se comprometesse a não descriminalizar o aborto?
Sim. O que eu estou querendo dizer é que esse tipo de intervenção - como o do pastor Malafaia (que declarou voto em Serra) - é criado em função de entenderem que eles estariam tendo uma maior capacidade de influência junto à Dilma ou ao Serra. Eu acho que há um pragmatismo aí por trás. Eu acredito que o pastor Silas Malafaia, quando declara o seu voto, ele é uma pessoa que faz a opinião pública. É um caráter extremamente pragmático. Eu acho que ele está aí tentando se cacifar no jogo da política. Ele não é só um ator religioso. Tem aí também um jogo das lideranças religiosas no sentido de serem reconhecidas enquanto atores políticos, atores que vão estabelecer uma série de acordos e vão ter acesso ao cenário político. A questão doutrinária é colocada na mesa para negociar ou para forçar um reconhecimento enquanto ator político.
Colocar essa questão do aborto às vésperas da eleição é uma ação eleitoreira? Em especial, o questionamento direto feito à postura da candidata Dilma por ela não ter se definido sobre o tema.
Existem coisas que acontecem dentro das igrejas. E existem coisas que, da Igreja, são levadas para a mídia. Que a mídia tem mais simpatia pela candidatura do Serra, isso é inegável. Mas, por exemplo, o Silas Malafaia está distribuindo CDs e DVDs contra o aborto. O que é curioso é que, por exemplo, não houve uma discussão em torno da homofobia - que também é um tema difícil. Por quê? Porque os homossexuais têm uma mobilização dentro da sociedade, então eles conseguem dar uma resposta de pronto, acionando a Justiça. Eles têm uma capacidade de mobilização muito maior que o movimento a favor do aborto. No caso dos homossexuais, por mais que os líderes religiosos sejam contra, eles não conseguem interferir nesse debate e nem trazer isso para o momento eleitoral. São temas que estão sendo usados porque a sociedade civil brasileira ainda não tem uma posição clara com relação ao aborto. Então, permitiu que esse tema fosse usado dessa forma.
FONTE: Terra Magazine
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Igreja incentiva fiéis a não votar no PT. Quanto a pedofilia dos padres, qual é a posição?
Reproduzo post do Blog Maria Frô sobre o posicionamento e orientação da Igreja Católica contra votos na candidta Dilma Rousseff e o PT de maneira geral. Lembrando que esse tipo de restrição foi feita também por dirigentes aos Evangélicos. Na visão das Igrejas Dilma e o PT são uma ameaça á vida. De maneira geral a religião teve um peso enorme nas decisões de votos do eleitorado neste primeiro turno.
Eu estranho muito o posicionamente político da Igreja Católica, mesmo sem o aval explícito da CNBB. Diz a entidade que não aprova o debate político ou discussões sobre esse ou aquele candidato. Se for assim, a entidade maior representante da Igreja Católica no Brasil demonstra não ter o mínimo domínio e representatividade sobre seus subalternos.
Da maneira que está, cada um faz o que bem entender e pode, como é sabido, incentivar uma campanha política de acordo com suas conviccções pessoais usando o nome de Deus.
E em nome de Deus eu gostaria sinceramente de saber o que tem a me dizer a CNBB e seus quadros distribuídos pelo Brasil afora sobre as questões relacionadas por exemplo a um tema muito contundente:
"O que tem a me dizer essas instiuições religiosas que em nome de Deus abominam determinados candidatos por entenderem que estes são satisfatórios a legalização do aborto (mesmo que não haja nenhuma declaração oficial de tais candidatos nessa questão), quanto a disseminação da prática mundo afora, da "pedofilia infantil" praticada por padres (representantes de Deus) da Igreja Católica Apostólica Romana? É esse o seu respeito a vida?
Por fim, hipocrisia pouca é bobagem...
Abaixo o post:
Eu estranho muito o posicionamente político da Igreja Católica, mesmo sem o aval explícito da CNBB. Diz a entidade que não aprova o debate político ou discussões sobre esse ou aquele candidato. Se for assim, a entidade maior representante da Igreja Católica no Brasil demonstra não ter o mínimo domínio e representatividade sobre seus subalternos.
Da maneira que está, cada um faz o que bem entender e pode, como é sabido, incentivar uma campanha política de acordo com suas conviccções pessoais usando o nome de Deus.
E em nome de Deus eu gostaria sinceramente de saber o que tem a me dizer a CNBB e seus quadros distribuídos pelo Brasil afora sobre as questões relacionadas por exemplo a um tema muito contundente:
"O que tem a me dizer essas instiuições religiosas que em nome de Deus abominam determinados candidatos por entenderem que estes são satisfatórios a legalização do aborto (mesmo que não haja nenhuma declaração oficial de tais candidatos nessa questão), quanto a disseminação da prática mundo afora, da "pedofilia infantil" praticada por padres (representantes de Deus) da Igreja Católica Apostólica Romana? É esse o seu respeito a vida?
Por fim, hipocrisia pouca é bobagem...
Abaixo o post:
Regional Sul 1 da CNBB trabalhou contra voto ao PT
Maria Inês Nassif, no Valor Online, via Luis Nassif e RSUrgente
04/10/2010
Incrustado na Zona Sudeste da cidade de São Paulo, o Parque São Lucas esconde a única igreja do Brasil da Congregação do Oratório São Filipe Neri. Fundada pelo padre Aldo Giuseppe Maschi em meados do século passado, a igreja até hoje realiza missas em latim, abolidas mundialmente pelo Concílio Vaticano II, em 1963. Na sexta-feira, o jovem padre Paulo Sampaio Sandes rezou a missa da tarde, de costas para os fieis, com a concessão ao português de três Aves Marias e uma Salve Rainha. O coro, de cinco beatas, também preferiu o latim.
O padre Paulo faz parte de uma congregação tradicional, é contra o aborto, a união civil de homossexuais e a adoção de crianças por casais de homossexuais. Entendeu a recomendação da Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) como uma ordem: expor, na homilia, no dia da eleição, o suposto veto da Igreja Católica à candidata Dilma Rousseff (PT), estendido a todos os candidatos do Partido dos Trabalhadores, e distribuir, na saída da missa, a carta onde explicitamente a regional descarta o voto católico nos candidatos que defendem o aborto, em especial, e nomeadamente, nos petistas. “No dia das eleições eu vou distribuir a carta lá fora, mas a carta é muito explícita em relação aos candidatos, não vou falar o nome deles na homilia”, disse o padre, depois da missa, confessando constrangimento com a determinação da Regional. “O próprio Dom Odilo Scherer diz que não devemos falar de nomes de candidatos”.
A recomendação da Regional Sul 1, que abrange as dioceses do Estado de São Paulo, foi uma “trama”, segundo o bispo de Jales, Demétrio Valentini, da Regional Sul I da CNBB, urdida de forma a induzir os fiéis paulistas a acreditarem que a CNBB nacional impôs um veto aos candidatos do PT nessas eleições. “Estamos constrangidos, pois a nossa instituição [a Igreja] foi instrumentalizada politicamente com a conivência de alguns bispos”.
A regional, que abrange as dioceses do Estado de São Paulo, recomendou às paróquias que distribuíssem o “Apelo aos Brasileiros”, uma longa carta em que acusa o PT de, mancomunado com o “imperialismo demográfico” representado por fundações norte-americanas que financiam programas de controle familiar, apoiar o aborto, e pediu aos padres que “alertassem” os fiéis para não votarem na candidata a presidente Dilma Rousseff, nem em qualquer outro petista. “A Presidência e a Comissão Representativa dos bispos do Regional Sul 1 da CNBB, em sua reunião ordinária, acolhem e recomendam a ampla difusão do apelo a todos os brasileiros e brasileiras elaborado pela Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1″, dizem o site da regional e o site da diocese de Guarulhos.
O presidente da Sul 1 da CNBB, Dom Nelson Westrupp, não respondeu a questões que foram enviadas pelo Valor por e-mail por orientação da sua assistente, Irmã Maurinea. O bispo de Guarulhos, Dom Luis Gonzaga, um dos articuladores do movimento antipetista na Igreja, em julho, no artigo “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, recomendou “aos verdadeiros cristãos católicos” não votarem em candidatos que apoiam o aborto e, em especial, recusarem o apoio a Dilma e ao PT.
Do ponto de vista da hierarquia católica, a recomendação e o documento dos dirigentes da Regional Sul da CNBB não têm validade. No dia 16, a Conferência deixou claro isso, numa nota oficial: “Falam em nome da CNBB somente a Assembleia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência. O único pronunciamento oficial da CNBB sobre as eleições/2010 é a Declaração sobre o Momento Político Nacional, aprovada pela 48ª Assembleia Geral da CNBB, deste ano, cujo conteúdo permanece como orientação neste momento de expressão do exercício da cidadania em nosso País”, diz. O cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, em 20 de agosto, enviou um comunicado a todos os padres de dioceses esclarecendo que os representantes da Igreja não devem se envolver publicamente na campanha partidária, nem “fazer uso instrumental da celebração litúrgica para expressão de convicções político-partidárias”. Sugere que orientem os fiéis a votarem em candidatos afinados com os princípios cristãos, “sobretudo no que diz respeito à dignidade da pessoa e da vida, desde a sua concepção até à sua morte natural”, mas alerta para que não indiquem nomes.
Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales, foi o bispo que reagiu de forma mais direta e clara ao que chama de “trama” da Regional Sul 1 da CNBB. À sua diocese, tem encaminhado sucessivos artigos contra o documento da regional. “Não é bom para a democracia que alguns decidam pelos outros (…) Mas é pior ainda para a religião, seja qual for, pressionar os seus adeptos para que votem em determinados candidatos, ou proibir que votem em determinados outros em nome de convicções religiosas (…) Portanto, seja quem for, bispo, padre, pastor, ninguém se arrogue o direito de decidir pela consciência do outro, intrometendo-se onde não lhe cabe estar”, no artigo “Pela liberdade de consciência”, divulgado no dia 19.
FONTE: Lido no Blog Maria FrôA CNBB nacional acabou encerrando sua participação no episódio com a nota em que desautoriza qualquer decisão contrária à da Assembleia Geral, que não vetou candidatos ou partidos. A direção da Conferência está em Roma. Em São Paulo, remanescentes da Igreja progressista estão pasmos. “Nunca houve uma campanha eleitoral com tanta manipulação da religião”, lamenta um deles, lembrando que isso aconteceu também, e fortemente, com a Igreja Evangélica.
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